
Viver o presente é tudo o que temos. Pensar no futuro é preciso e recordar o passado é poder viver novamente acontecimentos e visitar pessoas que agora não estão mais tão próximas de nós.
Gosto de lembrar das coisas boas que me aconteceram e dos momentos importantes da minha vida enquanto outros quero “deletar” para sempre mas, ficam alí no subterrâneo, no arquivo morto e servem de alerta.
Hoje quero falar das coisas boas mas não falarei de filhos, porque isto é muito mais que uma coisa e muitíssimo melhor que tudo na vida. Falarei da minha profissão e das boas lembranças que trago daquele tempo.
O maior tesouro que podemos acumular na vida são os laços afetivos que fizemos. Alguns são impossíveis de se desfazer passe o tempo que passar, esteja onde estivermos, sabemos que eles sempre estarão lá. As fitas coloridas desse laço nunca perderão suas cores e o nó estará sempre atado.
Professor ganha pouco, principalmente aqueles que trabalham com crianças ainda pequenas, a chamada escola elementar, mas são eles os que se aproximam mais do coração dos seus alunos. São mais que professores, são educadores. Muitas vezes fazem papel de pais, de psicólogos, de enfermeiros, de juízes, de conselheiros, enfim… Dentro de uma sala somos um sem número de pessoas: somos atores, somos artistas e somos, acima de tudo, gente que ama de verdade aquelas crianças e que choram no final do ano quando elas se vão para outras séries.
Bem, sempre fui assim. Como uma galinha choca que adorava ter seus pintinhos por perto e que guarda os bilhetinhos rabiscados cheios de errinhos e de carinho.
Mas a vida não para! Um dia eles crescem e se vão para outras escolas, para a universidade ou mudam de cidade, começam a trabalhar e um dia você esbarra com alguém na rua.
Alto, barbado, musculoso e com um sorriso a dizer-te “Bom-dia! Lembra-se de mim? E por trás daquele adulto me vem à mente aquele sorriso de criança feliz que brincava no pátio ou aqueles olhos brilhantes e matreiros de quem gostava de bulir com as meninas e enfurecê-las com apelidos ou outras coisinhas de criança.
Outras vezes é uma mulher linda que chega já com um filho no colo e a reconheço pelas feições do bebê. Isto para mim não tem preço.
Um dia uma dessas “alunas” se casou e convidou-me para o seu casamento. Médica formada!!! Aquela garotinha de sorriso doce e que havia me convidado também para assistir seu recital de piano anos antes.
Também convidou todos seus amigos de classe. Foi um reencontro emocionante. Dentistas, advogados, engenheiros, jornalistas, veterinários, toda uma gama de profissionais, lindos, maduros e conscientes. A foto registrou o momento mas o que me marcou foi que aos poucos cada um vinha conversar comigo e cada um tinha uma história diferente que ficara gravada na sua memória, daquele tempo em que eu “ensinava” a eles a matemática.
Um dizia que nunca se esquecera da “brincadeira de supermercado” que fazíamos na sala. Que brincar de comprar e trabalhar com o dinheiro, inclusive fazendo depósitos e retiradas em banco, o ajudara a se organizar melhor com a mesada ou com o dinheiro agora já do seu salário.
Outro se recordava do tempo em que fomos aprender todas as noções de área e medidas com o pedreiro que construía uma casinha de bonecas na escola.
Ainda outro me disse que oaquilo que lhe marcara foi a maneira como trabalhamos com figuras geométricas, construindo-as com palitos de churrasco e garrote de borracha. As descobertas de que somente o triângulo era “firme” e por isto era a base para construções mais sólidas e construir, dessa maneira, as figuras tridimensionais, lhe deram a idéia de como trabalhar melhor com programas de computador e fazer projetos arquitetônicos.
Outro se lembrou do livro “ O homem que calculava” e que lemos durante o ano, e dos problemas que precisavam mais de astúcia e raciocínio para resolver do que propriamente números.
Foram dois anos com essa turma onde compartilhamos experiências e eu sinceramente não imaginava que pudessem se lembrar de tudo aquilo.
Ainda hoje me lembro com saudade de cada um dos alunos que tive. Alunos? Não… Filhos, filhos de uma mãe orgulhosa do que são hoje.
Obrigada a todos vocês que me marcaram e me ensinaram com sorrisos e carinho a construir aquilo que hoje chamo de “minha vida”.