( Foto de 1995 quando completou 84 anos com alguns de seus bisnetos e tataranetos.)
Fosse vivo, hoje meu pai estaria completando 100 anos. Ele se foi há nove anos mas sua presença jamais será apagada de minha vida.
Foi um pai severo, severíssimo. Moldado por uma educação do século XIX e por uma geração machista, muitas vezes fez sofrer a todos da família pela postura altiva.
Ele sempre tinha razão, não havia espaço para diálogos. Assim cresci, sendo sempre submissa e obediente. Naquele tempo criança não tinha voz e nem podia ouvir conversa de gente grande. Se por acaso, distraída, eu não visse que havia alguém na sala a conversar e entrava no ambiente bastava um olhar para que eu entendesse imediatamente o recado e voltando nos pés saísse dali em silêncio.
Éramos só nós dois. Minha mãe morrera quando eu tinha apenas 9 anos. Meus irmãos, todos bem mais velhos, já eram casados e seus filhos tinham a mesma idade que eu.
Eu estudava e cuidava da casa mas ele nunca gostou que eu estudasse, mesmo sendo a escola em frente à casa onde morávamos. Fazia minhas lições escondida e deixava para ler e estudar quando ele já tinha ido dormir.
Banho também se devia fazer quando ele saía, pois criado nos moldes de uma educação européia, dizia que muito banho fazia mal e se por acaso chegasse e percebia que eu estava no banho desligava o relógio de energia e assim a chuveirada terminava gelada e com um sermão.
Mas, por outro lado tinha um coração bom. Repartia tudo o que tinha em casa com os amigos e vizinhos. Se via alguém passando frio era capaz de tirar sua camisa para dar aos outros.
Na época das frutas ninguém podia colher nada antes da hora e depois da colheita, feita por ele, era repartida igualmente entre todos os filhos.
Dizia que havia tido apenas 3 meses de aula, mas aprendera o suficiente para ler, escrever e calcular até juros com uma rapidez espantosa. Aliás, sua inteligência e memória fora fabulosa até nos últimos dias de vida.
Gostava de jogar baralho e me ensinou muita coisa que pode parecer espantosa aos pais de hoje.
Ensinou a jogar muitos tipos de jogos com cartas, ensinou-me a atirar com revólver e espingarda. Até comprou-me uma arma, daquelas de chumbinho à pressão, mas suficientemente perigosa pois poderia até matar pequenos animais. Mas também ensinou-me a responsabilidade de tê-la em mãos.
Cresci assim meio garota, meio moleque. Submissa mas sabendo exatamente o que queria. Quando se tem limites rígidos se procura sonhar e realizar os sonhos.
Apesar da dureza da educação aquilo me fazia sentir segura. Sabia o que podia e o que desejava com clareza.
Naquele tempo parecia tudo tão difícil… Hoje, lembro com saudade.
Saudade de você, pai... Saudade das histórias de Saci, de mula sem cabeça, de Lobisomem… Saudade dos jogos de buraco… Saudade até das broncas, mas sobretudo saudade do seu sorriso e do brilho no olhar quando contava e recontava as histórias da família, da vinda dos pais para a América e das dificuldades e das vitórias.
Você não sabia mentir… era fácil descobrir porque quando o fazia havia sempre uma nesga de sorriso no canto dos lábios.
Saudade… Saudade…
Onde quer que estejas te envio meu abraço e meu muito obrigada.
Parabéns, pai. Amarei você eternamente.
Angela