O tempo anda veloz, veloz demais para o meu gosto. Não damos mais conta dos compromissos. Coisas boas como abraçar os amigos, desejar pessoalmente boas festas definitivamente ficaram no passado.
Alguém acelerou a roda do tempo, deu corda demais no relógio e agora para todos os lados que olho parece que vejo sempre o coelho da história da Alice a olhar para um grande relógio a dizer: Estou atrasado!
Quando era menina, o tempo andava lento como os carros nas ruas. Os dias eram longos como as conversas nas varandas.
O Natal custava a chegar e era sempre muitos esperado pelas crianças.
Somente no Natal se podia ganhar algum presentinho, pois não se comemorava o aniversário (quando muito se puxava as orelhas no número de vezes que fazia os anos).
Os presentes eram coisas simples como bonecas de louça e carrinhos de madeira, mas eram ansiados e cuidados depois por todo o ano seguinte.
Na véspera do Natal, as crianças eram orientadas a cortar capim para o cavalinho do Papai Noel. (Não sabíamos que o “cavalinho” na verdade eram renas). Colocava-se o capim em um pratinho ou sapatinho e o deixava toda a noite na janela, pelo lado de fora.
Durante a noite, a mágica acontecia. Papai Noel deixava um presente enquanto seu “cavalinho” comia todo o capim.
Somente as crianças boazinhas ganhavam presentes, mesmo!
Eu era a última dos 7 filhos e, quando nasci, minhas irmãs eram já adultas e duas eram casadas e tinham filhos. Assim, sozinha e não tendo com quem brigar, sempre fui muito boazinha. Mas, tinha uma sobrinha, dois anos mais nova que era um terrorzinho. Quebrava meus brinquedos e me batia. Porém, o castigo era sempre para as duas, não importava quem começava ou quem apanhava.
Na semana do Natal a expectativa das crianças era grande. Vinham para a minha casa minhas irmãs casadas e seus filhos. Os adultos se preocupavam com os preparativos da festa. Não tendo supermercado, alguns meses antes meu pai comprava leitoa, cabrito e galinhas e na véspera os matava. Era um dia de grande tristeza para mim. Não podia ouvir os gritos dos bichinhos e nem ver meus amiguinhos morrendo.
Mas, a espera do Papai Noel superava qualquer coisa.
Tinha eu 4 ou 5 anos e, pela euforia, não conseguia dormir.
Pensando que todas as crianças já estavam dormindo, os adultos começaram a colocar os presentes e eu ouvi claramente quando minha irmã perguntou ao meu pai onde estava o meu presente.
Ele disse que havia se esquecido de comprar. Não sei o que foi mais terrível: descobrir que Papai Noel não existia ou perceber que meus pais haviam se esquecido de comprar o único presente do ano para a caçulinha.
Engoli o choro para não perceberem que eu estava acordada.
Assim, com os sonhos espedaçados e o coração partido passei boa parte da noite. Na manhã seguinte ouvia o riso alegre dos meus sobrinhos abrindo seus presentes. Eu não queira ir até à sala pois sabia que não havia nada para mim.
Mas, minha irmã me chamou para ver o que eu tinha recebido. No meu pratinho havia uma garrafinha de guaraná. Foi o que eles puderam pensar naquela hora da noite. Confesso que não foi fácil engolir o líquido nem me esquecer dos olhos que me fitavam com pesar.
Nunca reclamei por não ter recebido meu presente, mas também nunca mais me esqueci do dia em que fui esquecida pelo Papai Noel.
Hoje, penso nas crianças que nunca puderam ter um natal com brinquedos, com fartura na mesa e agradeço a Deus a vida que tenho. Apesar de tudo, sou uma felizarda. Tive família, noite de Natal e também alguns brinquedos.
Aquele que não recebi serviu para aprender a não valorizar tanto as coisas materiais e que no Natal o que importa mesmo é a união da família, a paz e o amor.